Os feijõezinhos de Foucault

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Olhando a criança, analisando as suas ações, percebo que entre a criança e o louco há uma certa semelhança: a criança loucuras faz, e o louco é uma criança.

A inocência da criança não é insanidade, é pureza, contrariamente ao louco…

O fator tempo se encarrega de encontrar a diferença: a criança nasceu há pouco; o louco, há muito nasceu; a criança vai aprender, o que o louco desaprendeu!

Todos têm paciência e muito amor com as crianças, porém do louco querem distância. Às atitudes do louco, tanto quanto as da criança são de pura inocência, de total ignorância

 “A criança e o louco” de Esther Rogessi – Disponível online em <http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3972793> – acesso em 30 set 2017

 

Foucault entende que a loucura é apenas um tipo de pensamento, uma razão que ninguém entende. Um exemplo que li recentemente em um site [VINICIUS, 2017] ilustra isso: “(…) é a mesma coisa de que um estrangeiro que visita o Brasil e não entende o idioma português; obviamente que tanto o estrangeiro quanto os brasileiros, estes não conhecendo o tal idioma que não seja o português, não irão se entender. Mas esse estrangeiro será tachado de louco, só porque o seu idioma não é compreendido no Brasil? É claro que não, pois o seu idioma, apesar de não ser entendível no Brasil, não quer dizer que não tenha uma linguagem, não tenha sintaxe ou não tenha estruturas e razões”.

Por não ser entendido, o louco foi taxado de “sem razão” e imposto um tratamento que a trouxesse de volta. Mas fica um pensamento: “Seria lógico também impor o idioma português ao estrangeiro com intuito de trazê-lo a ‘normalidade?’”

Hegel pensava a loucura como pertinente e necessária à dimensão humana. Escreveu que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela. É necessário, portanto, entender a loucura.

Entendemos que apenas podemos tentar compreender a loucura, se lançarmos mão de nossa criança interior, de nossa inocência primal, de nossa ignorância inicial. Convidamos você, leitor, a participar de uma experiência: ouvir uma história infantil que retrata a visão de Foucault sobre a loucura. Ouvir, não como um adulto, mas como criança. De tal que a mensagem consiga passar livremente para nossa mente e despertar as pergunta puras que a infância nos permite.

Esperamos que assim possamos lançar alguma luz na complicada história da Loucura, pois afinal, como escreveu Millor Fernandes, “a única diferença entre a loucura e a saúde mental é que a primeira é muito mais comum”.

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Os 3 feijõezinhos de Foucault (Gisele Marinho)

Era uma vez 3 feijõezinhos que se chamavam Zezinho, Carioquinha e Amelinha. Eles viviam felizes pelo mundo. Eles dançavam, plantavam, criavam arte, cada qual com suas características, seus dons e seu próprio tempo. Eles faziam e aconteciam!

Um belo dia, o Sr. Capitão, que mandava em todos os feijões da Terra dos Feijões, convocou todos os que lá viviam a irem trabalhar na Fábrica, que, ele dizia, iria fazer tudo o que eles fariam, mas muito mais rápido e em maior quantidade. Se um feijão bordava, a Fábrica fazia dez bordados. Se um feijão fazia arte, a Fábrica fazia dez vezes mais!

Zezinho desempenhou seu papel muito bem. Carioquinha fazia o que lhe era mandado, mas na sua cabeça começaram a nascer minhocas sem que ele percebesse e isso lhe trazia um incômodo que ele não sabia explicar. Amelinha não conseguia de modo algum fazer o que lhe mandavam – ela tinha seu próprio tempo, que nem sempre era o do Sr. Capitão e da Fábrica. Quando era exigida, ficava totalmente desorientada. Não sabia o que fazer e muito menos para que fazer!

O Sr. Capitão sempre dizia que as pessoas que cumpriam suas tarefas eram mais felizes. Os que não cumpriam eram chamados “indigentes”, “vagabundos”, “ladrões” e, aqueles como Amelinha, “loucos”. Carioquinha não entendia isso. Afinal, Amelinha era muito feliz antes de aparecer a Fábrica e o Sr. Capitão. Ela fazia as coisas. Devagar, de um jeito peculiar, mas sempre fazia. E todos eram felizes! E a cabeça dela não fervia como a dele agora. Que felicidade seria essa de seguir os desejos do Sr. Capitão e ignorar os seus?!?

Com o tempo, o Sr. Capitão começou a achar que se algum feijão não fizesse o que era pedido, deveria ser mandado para fora da Fábrica e das redondezas. Afinal, isso fazia com que os outros feijões não cumprissem direito seu papel!

Na verdade, sem que o Sr. Capitão percebesse, Amelinha e os outros feijões como ela mostravam o quão malvado ele estava sendo. Mostravam que havia uma outra forma de ver as coisas. Mostravam o quanto ele prezava sua Fábrica e nada mais. E ele não gostava de saber sobre seu lado malvado…

Assim, Amelinha e seus amigos foram separados. Tentaram mandar os feijões em navios que ficavam vagando pelos mares. Depois, tentaram trens. Levavam os feijões que não se adaptavam para longe, vagando de cidade em cidade e acabavam sobrevivendo por meio da bondade de alguns.

Isso não funcionou muito bem e Amelinha e todos os “desajustados” foram mandados para uma caixa, onde ficariam longe de todos. Carioquinha, mais uma vez, não entendeu nada. Afinal, Amelinha era boa! Ela não devia ficar na caixa com feijões que roubavam e batiam nos outros.

Diante desses questionamentos, O Sr. Capitão trouxe uma nova ideia: A Panela de Pressão. Um lugar muito longe, fora da Cidade dos Feijões. Em um lugar em que o Sr. Capitão dizia que os feijões que não conseguiam se adaptar na Fábrica seriam “curados”. Carioquinha foi um dos que não entendeu (de novo). Afinal, “curados” de que se eles eram tão felizes antes da Fábrica?…

Por um tempo, tudo pareceu funcionar direito. Até que, um dia, vários feijões começaram a adoecer. Logo surgiu uma ideia de que era a fumaça que vinha da Panela de Pressão que estava adoecendo os feijões. Todos ficaram apavorados e exigiram que o Sr. Capitão fizesse alguma coisa.

Sem saber ao certo o que fazer, o Sr. Capitão colocou a Panela de Pressão mais longe da Cidade dos Feijões. E mais longe, mais longe, mais longe… E nada mudava! E assim, aos poucos, surgiu a ideia de que eles deveriam mudar a Panela de Pressão para que a fumaça não saísse mais. Eles tinham que criar um novo tipo de lugar. E criaram. Uma Panela mais limpa, ampla. Onde os feijões pudessem ficar confortáveis. Porém, quando fizeram isso, viram que havia feijões diferentes. Que nem todos eram “desajustados” do mesmo modo. Alguns não prestavam atenção, outros giravam, outros gritavam, enfim, cada um tinha seu jeito. Então o médico do Capitão, o Dr. Lelé, resolveu dar nomes a esses desajustes. Alguns ele chamou de “demência”, outros, de “transtornos” e por aí foi.

O Sr. Capitão, como todo capitão, tinha um papagaio. O dele se chamava Psiu. Psiu era um papagaio diferente. Ao invés de falar, ele gostava de ler e escutar. Ele lia muito e escutava com toda atenção. Um dia, o Dr. Lelé pegou o papagaio do Sr. Capitão emprestado e levou para os feijões verem. Primeiro levou para a cidade. Lá Psiu encontrou Carioquinha e vendo tantas minhoquinhas na cabeça dele, não resistiu e cutucou todas. Elas não aguentaram o bico de Psiu e fugiram da cabeça de Carioquinha. Nossa! Ele se sentiu muito aliviado! Ele aprendeu que a queimação na cabeça que ele sentia eram, na verdade, essas minhoquinhas. Com o tempo, ele aprendeu a cutucar, ele mesmo, suas minhocas e elas não ficavam mais na sua cabeça.

Dr. Lelé achou isso muito interessante, e resolveu levar Psiu para a nova Panela. Será que esses feijões também tinham minhoquinhas nas cabeças? E parece que havia. Não todos, mas muitos tinham apenas minhoquinha e Psiu, expulsou todas! E o Sr. Capitão viu que isso era muito bom pra Fábrica, pois os feijões que não trabalhavam, passavam a produzir e a Fábrica ia de vento em popa!

Com o tempo, os feijões perceberam que era preciso outra solução que não fosse uma Panela, fosse ela de que tipo fosse. Carioquinha partiu em defesa de sua amiguinha. Sem as minhocas na cabeça, ele conseguiu ver que poderia haver outra saída. Junto com Psiu, criaram um lugar em que esses feijões poderiam cuidar da natureza, fazer artes, seguir seu próprio ritmo. Na Fábrica, todos os feijões viviam competindo. No lugar que Carioquinha e Psiu criaram, todos viviam em cooperação. E, assim, todos estão aprendendo a cuidar suas vidas.

 

Referências

FOUCAULT, Michel. A História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978. 608 p.

VINICIUS, Marcelo. RESENHA SOBRE O FILME ‘FOUCAULT POR ELE MESMO’. Disponível em: <http://lounge.obviousmag.org/marcelo_vinicius/2013/03/resenha-sobre-o-filme-foucault-por-ele-mesmo.html#ixzz4uAnBPFyM>. Acesso em: 30 set. 2017.

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