A vida é uma valsa

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Hoje tive uma grata surpresa. Estávamos em um vôo e, dentre as escolhas de músicas, encontrei um álbum desconhecido, chamado Buena Vida, de Diego Torres – #ficaadica. Me ganhou na primeira música, La vida es un vals, algo como “A vida é uma valsa”. Em seu refrão, muito contagiante, devo dizer, o músico canta que  “A vida é uma valsa, um passo adiante, um passo atrás”. Muito bem dito! Ao dançar, temos um objetivo que nos é claro, dançarmos ao som da música e, com isso, descarregarmos aquela energia presa, nos expressarmos, fluirmos e nos conectarmos a algo maior, que sequer podemos denominar. Para quem se entrega, algo místico.

Ao vermos tão claro esse objetivo, o caminho do fazer se torna tão prazeroso quanto atingir o objetivo em si. Nesse bailar da vida, por vezes avançamos, por vezes recuamos, mas, se não perdermos de vida nosso objetivo, consideramos esse vai e vem como parte de uma coreografia, cansativa, mas prazerosa. Ao oscilar, jamais voltamos ao mesmo ponto. Subimos a cada ciclo, cada vez mais perto de nosso objetivo.

Eu sei… isso parece um roteiro de novala ou algo que se leria em um biscoito da sorte. Pode até ser, mas nem por isso é uma mentira. E há uma razão biológica para tanto. Antes de discutir isso, porém, vamos entender uma coisa. Lembram-se que, em um post anterior, falamos sobre a questão da amizade x coleguismo e escrevemos que as crianças são mais fiéis ao seu self? Isso se dá porque há uma parte do nosso cérebro, chamado córtex pré-frontal – encarregada das chamadas funções executivas – que ainda está em formação. Para Malloy-Diniz et al. (2016), as funções executiva podem ser entendidas como um conjunto de processos cognitivos integrados que permitem ao sujeito se orientar à metas, inclusive avaliando e se adaptando seus comportamentos para atingir mais eficientemente seus objetivos. Enfim, o que mamãe chamava simplesmente de “juízo”. Quando ela dizia “Menino! Toma juízo!”, ela queria na verdade dizer “Ative esse córtex pré frontal!”, mas isso fica muito mais difícil de explicar para um garoto de 4 anos querendo fazer alguma travessura…

O que acontece é que nascemos com essa parte do cérebro ainda em formação. Não temos ainda esse autocontrole. Isso vai se formando aos poucos, com as interações do sujeito com o meio. Tem seu pico de velocidade de desenvolvimento entre os 6 e 8 anos e continua até sua plena formação no início da vida adulta. Os adolescentes ainda estão em amadurecendo essa área – o que diz muito sobre seu comportamento. Na velhice há uma redução gradual dessas funções – o que explica o fato da vovó ser tão “boca grande”!!

Certo. E daí? Bem, os estudos têm apontado que um maior desenvolvimento das funções executivas – principalmente o autocontrole – tem relação com maior sucesso na vida. Malloy-Diniz et al. (2014, p.118) cita um estudo do psicólogo Walter Mischel em que se estudou a famosa “tarefa dos marshmallows”

No teste, a criança recebe um marshmallow e um sino. Propõe-se que, se ela esperar um tempo, fanha um segundo marshmallow, ou, se preferir, pode comer o marshmallow imediatamente e não ganhar o segundo. Durante a espera, ela pode tocar o sino a hora que quiser, sinalizando sua desistência. As crianças de Mischel têm sido acompanhadas por vários anos. As diversas publicações derivadas desse estudo mostraram que as crianças que consiguiram postergar a gratificação aos 4 anos tiveram melhor desempenho em termos de cognição social, enfrentamento de diversidades e desempenho na adolescência.

À medida que amadurecemos, conseguimos perceber melhor o que verdadeiramente desejamos. Esse real desejo – vindo do self e não do exterior – nos leva a traçar metas, avaliar resultados, tomar ou abandonar ações, sempre sem perder esse objetivo de vida. Como as crianças do teste, ter em mente claramente que queremos nos permite resistir à tantos “marshmallows” que surgem na vida ao longo de nossa caminhada, que nos parecem tão apetitosos, mas que, no fundo, apenas nos afastam do objetivo. Com isso, os percalços da vida passam quase que despercebidos. O que outros vêem como obstáculos que os impedem de avançar, podemos ver como uma dança e, como diz a música, “(…) você verá que a vida vem e vai/ Como uma valsa/ Um passo a frente/ Outro passo para trás”.

Referências

MALLOY-DINIZ, L. F. et al. (Org.). Neuropsicologia: aplicações clínicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.

___________________. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2014.

 

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