Amigo, colega ou conhecido?

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Há alguns dias, um amigo me questionou por que crianças temos amigos e adultos, contatos no LinkedIn. Valeu Adolfo! Me arrumou mais uma questão para me arrancar das minhas tarefas acadêmicas para pesquisar!! Rsrsrs!

Bem, brincadeiras à parte, vamos começar do começo. Você já se perguntou qual a diferença entre um amigo, um colega e um conhecido? A psicóloga Aline Cataldi (2017) escreveu um pequeno artigo no qual dá uma definição para os termos. Para ela, “(…) amizade é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo”. Já um colega é alguém de seu círculo de conhecimento. Alguém próximo, mas com quem não desenvolveu um laço mais forte. Cataldi (2017) exemplifica:

(…) colega é a pessoa que estuda na mesma escola, trabalha na mesma firma, tem o mesmo cargo, exerce a mesma função, participa do mesmo jogo ou da mesma competição. Os conhecidos são pessoas que não nos são estranhas e que por vezes tecemos contatos para fins específicos.

Veja, apenas aqui nesse ponto o “fim específico”, o objetivo da ação entra em questão e entendo que é essa a raiz da distinção que Adolfo me pediu para discutir.

Papalia, Olds e Feldman (2006, p.347) escreve que para crianças, os amigos são aqueles com quem as têm mais interações positivas bem como negativas. São aquelas com quem mais brincam e mais brigam.

As crianças podem ficar tão bravas com um amigo quanto com alguém de quem não gostam; porém tendem a controlar sua raiva e a expressá-la de maneira construtiva (apud Fabes, Eisenberg, Smith e Murphy, 1996)

As crianças se permitem, assim, serem aquilo que verdadeiramente são. Se permitem expressarem seu self e não o que desejam que os outros vejam de si e por isso desenvolvem amizades. Quem não já se espantou com o quão verdadeiro um pequeno pode ser quando se expressa? Quantos pais já não se viram em situações delicadas por seu filho(a) dizer o que eles (adultos) consideravam “inadequado”?

Aqui vamos criar uma pequena pausa para falarmos a mesma língua. O que é esse self de que falei? Bem, em uma visão junguiana, ao nascer, o indivíduo é completo. Ele é puro self. Ele é uno com tudo. Aos poucos, percebe ser um ser diferente dos demais que o cercam e cria um ego – que significa exatamente “eu” – para lidar com as experiências que passa a ter. Essas interações começam a ter resultados positivos e negativos. O sujeito começa a descobrir que existe o “bom” e o “mal”, o “correto” e o “inadequado” e, inicialmente para ter o amor da mãe e mais tarde por outros motivos, começa a abdicar de pedaços de seu self em prol de aprovação. Essas características são recalcadas em uma área do inconsciente pessoal que Jung chama de sombra – falamos disso depois, não se preocupe.

Essas características que são vistas positivas começam a definir uma persona, uma máscara que o sujeito usa para lidar com o mundo externo. Jung define persona como “(…) um complexo funcional, que surgiu por razões de adaptação ou de uma necessária comodidade, mas que não é idêntico com a individualidade. Refere-se exclusivamente à relação para com os objetos, com o exterior” (JUNG apud JACOBI, 2013, p. 51). A persona seria, assim, como um “eu falso”, uma imagem que soma e resume nossa essência, e que formamos a partir de nossa experiência no mundo.

Inicialmente, na infância, os papéis que desempenhamos são desenhados a partir das demandas familiares. Esse é o primeiro padrão de formação do ego e da persona. Ao longo do amadurecimento, ego e persona se dissociam, uma vez que a persona deve se adaptar a cada vez mais demandas vindas não apenas da família, mas também do mundo extrafamiliar. Persona é uma forma de proteção do Ego de tal a não ser visto como pensa que é, mas sim como gostaria de ser visto. A persona também protege uma Sombra – que seria seu oposto.

Aqui a situação começa a se tornar forma. À medida que cresce, a quantidade de interações cresce e as partes do self do sujeito são mais e mais podadas. O conteúdo na sombra cresce e a persona se torna mais “forte”. Alguns se associam a tal ponto à sua persona que não se reconhecem mais. São “o médico” ou “o advogado”, mas não sabem o que verdadeiramente são – e essa é uma das raízes de patologias psíquicas.

A criança pode expressar de maneira praticamente livre seu self e com muitas pessoas pode fazê-lo: com os amigos da escola, com os pais, com os irmãos… À medida que se torna adolescente, percebe que não é possível se expressar livremente com qualquer um. Em muitos casos é repreendido – como com certos relacionamentos parentais – ou excluído – como alguns relacionamentos sociais. O grupo com quem pode ser verdadeiro consigo se reduz e também se reduzem os amigos. Minha avó costumava me dizer que os amigos se contam nos dedos e nem precisamos de duas mãos. À medida que envelhecemos, diria que poucos dedos. Os adolescentes, dada sua necessidade de expressão e inserção social, trocam os muitos amigos por poucos amigos e muitos colegas. Colegas demais talvez, dada a quantidade de “amigos virtuais” que muitos têm nas redes sociais. Segundo Cataldi (2017)

Nós vivemos em uma época em que nossa cultura nos bombardeia com valores efêmeros como: consumir, exibir, competir. Então nada melhor do que competir quem é mais sociável, quem tem mais amigos, quem tem mais e melhores coisas para exibir, quem tem as fotos mais bonitas e perfeitas para mostrar e assim por diante. É a cultura do exibicionismo e do espetáculo.

Adultos, esse campo de livre expressão se resume a uma quantidade ínfima de pessoas. Somos, porém, seres sociais. Precisamos do outro. Precisamos discutir ideias, precisamos de ajuda em projetos, precisamos compartilhar. Diminuem-se os amigos, surgem mais conhecidos. Não amigos com quem podemos ser verdadeiros, não colegas com quem dividimos experiências comuns, mas conhecidos, com quem tecemos laços sociais apenas para atender a um objetivo fim. Ajudantes para uma tarefa. Nada mais.

E seguimos assim, adultos, orgulhosos, quase independentes, mas falsos. Falsos demais. Conosco, com os demais. Fecho aqui com um trecho de Hamlet, de Shakespeare. Quando seu filho, Laertes segue para a universidade, quando vai deixar o conforto do lar e encarar a vida adulta propriamente dita, Polônio lhe dá, dentre outros, o seguinte conselho: “E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo./ Jamais serás falso pra ninguém”. Sê fiel ao teu self e assim jamais serás falso com ninguém.

Um abraço!

Referências
CATALDI, Aline. Amizade: uma conversa com adolescentes. Disponível em: <http://www.revistahelp.com.br/materia.cfm?id=274>. Acesso em: 07 jun. 2017.
JACOBI, Jolande. A psicologia de C. G. Jung: uma introdução às obras completas. Tradução de Ênio Paulo Giachini – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
PAPALIA, Diane E.; OLDS, Sally W. ; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento Humano. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. 888 p.

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