João e o pé de feijão – o desenvolvimento do jovem adulto

Publicado por

Algumas vezes nos pegamos surpreendidos em quanto um livro nos toca. Parece mesmo que o autor escreveu esta ou aquela frase sabendo nossa história. É fantástico quando isso acontece. Na maioria das vezes, porém, há um diálogo ainda mais interessante, interno, em que o autor fala diretamente com o próprio inconsciente do leitor. Os contos infantis são um grande exemplo disso. Consideremos a história de João e o pé de feijão. Há muitas versões do conto. Bettelheim (1980) estuda a versão “The history of Jack and the Bean-Stalk”, publicada por Joseph Jacobs em 1890, inpirada na história publicada por Benjamin Tabart em 1807. É baseado nos estudos desse autor que iremos escrever.

jack-and-the-beanstalk-1473274899vys.jpg
Fonte: Google Images

Na história, Jack – João na tradução brasileira – é enviado pela mãe à feira para vender a vaca da família, sua única fonte de renda e que, pela idade, já não produz mais leite. João é interpelado por um velho que lhe oferece três feijões mágicos pelo animal. João aceita, mas é repreendido pela mãe ao chegar em casa. Ela lhe toma os feijões das mãos, joga-os fora pela janela, briga com João e o manda para a cama sem jantar. Pela manhã os feijões haviam brotado e crescido, chegando às nuvens. João, então, decide subir na planta. Ocorrem uma série de aventuras e João ainda sobe no pé de feijão mais duas vezes. Na primeira volta com um saco de ouro. Na segunda, com uma galinha de ovos de ouro e, finalmente, na última, volta com uma harpa mágica.

Marcelo Buckowski (2016) faz uma interpretação da linguagem simbólica deste conto baseado no livro:

Fica claro que o conto mostra, simbolicamente, o jovem Jack lutando internamente para se tornar um adulto. Em outras palavras, a história retrata o conflito psicológico dos jovens, quando é tempo desses não mais dependerem financeiramente da família, bem como saírem de casa para constituírem as suas próprias famílias. O dito protagonista está enterrando a infância para encarar a vida como um adulto. A estória é um grande rito de passagem, na qual João aprende muitas lições, pois necessita delas para aprender a enxergar o mundo de forma mais racional e mais adulta. O herói está mudando, está crescendo fisicamente. Para não ser um adulto problemático, quando entrar em contato com a sociedade, ele necessita também crescer psicologicamente.

A mãe de João percebe que ele não é mais uma criança. A incomoda ainda ter que alimentá-lo. Isso é expresso pelo leite da vaca que seca – referência ao fato de o leite ser o primeiro alimento do homem e proveniente do seio materno. Quando a mãe manda João à feira vender a vaca, significa enviá-lo ao mundo – para fora dos limites da família – tentar ali encontrar o seu sustento.

João encontra o velho que lhe oferece os três feijões. Há aqui uma interpretação própria da adolescência, de que há uma fórmula mágica para lhe resolver os problemas. Uma solução fácil. Contard (1994) esclarece que

Trata-se do perigo da onipotência. Ou seja, ao se ver em uma situação difícil, o adolescente tende, primeiramente, a utilizar-se de soluções mágicas, onipotentes: tudo vai ser resolvido sem esforço, sem responsabilidade(…)
Na sabedoria do conto será contida, no entanto, a ideia de que se a onipotência representa um perigo, por outro lado, ela impulsiona ao desenvolvimento. Sonhar, acreditar que vai dar certo é, no conhecimento popular, um pré-requisito para realizações. Assim, acreditando na magia das sementes, João planta em si a esperança de uma solução.

O grão aqui é simbólico. Em sua forma primitiva morre para que dele brote algo novo: no caso da história, deve-se morrer a infância para surgir a fase adulta.

Ao voltar para casa, a mãe subestima a independência de João. Ainda que inocentemente, ele acreditou que aquilo era uma solução – ou ao menos um caminho para. Ao ver o pé de feijão surgir, João decide-se por provar que a mãe estava errada e empenha-se em escalar a planta.

Aqui vamos fazer um intervalo. Nesse ponto, João teve que buscar sua afirmação como sujeito. Como dissemos no post anterior, Erikson teorizou que o desenvolvimento psicosocial do sujeito se divide em 8 etapas, em cada uma das quais enfrenta uma crise de ego. Nessa concepção, este evento nada mais é que uma dessas crises, através das quais “(…) sua personalidade vai se estruturando e reformulando de acordo com as experiências vividas, enquanto o ego vai se adaptando a seus sucessos e fracassos.” (RABELO, 2016). Nesta etapa de seu desenvolvimento, o adolescente busca sua identidade. Busca responder as questões “Sou diferente dos meus pais?”, “O que sou?”, “O que quero ser?”.

Ao ter sua tentativa de independência – e identidade – rechaçada pela mãe, João bem poderia ter acatado a ideia e mantido-se na posição de filho. Aceitaria esse lugar e ali permaneceria, tornando-se um exemplo do que nos acostumamos de chamar de adultescente, aquele que sequer saiu de seu lugar de filho.

Seguindo com nossa história, João, após subir o pé de feijão pela primeira vez, traz consigo uma saca de ouro. Com o passar do tempo, porém, o ouro acaba.

Isso demonstra que aquelas satisfações e felicidades propiciadas pelo ouro são limitadas e ele aprende com isso quando percebe o término do ouro. Além disso, Jack passa a ser encarado pela sua família de forma diferente, pois, agora, ele não é mais dependente da família e sim um sujeito que contribui financeiramente, dividindo as despesas da casa. (Buckowski, 2016)

Como João, vários jovens conseguem criar sua identidade, chegam a conseguir um emprego, gerar renda, mas não seguem adiante.

Erikson lembra que o ser humano mantém suas defesas para sobreviver. Ao sinal de qualquer problema, uma delas pode ser ativada. Nesta confusão de identidade, o adolescente pode se sentir vazio, isolado, ansioso, sentindo-se também, muitas vezes, incapaz de se encaixar no mundo adulto, o que pode muitas vezes levar a uma regressão. (RABELO, 2016)

Tomado pelo medo de ser incapaz de se encaixar no mundo adulto, temendo que o que conseguiu não fosse suficiente para “ser adulto”, João poderia ter incorrido em uma regressão, mantendo-se como um “adulto” em pele de adolescente, com a capacidade de identificar-se como um adulto, mas ainda se mantendo na posição de filho pela segurança que poderia auferir desta. Este seria um segundo tipo adultescente, aquele que, ainda que tenha a profissão, mantém-se na posição de filho pelo conforto que isso proporciona.

João não aceita isso e segue para uma segunda expedição. Nessa, retorna com uma galinha que pode colocar ovos de ouro sempre que for necessário. Com isso, João passa a ser capaz de “se virar sozinho”. Torna-se financeiramente estável. Tem a capacidade de suprir sozinho qualquer necessidade que possa vir a surgir. Por algum motivo, porém, isso ainda não é suficiente para o herói.

Muitos jovens param nessa fase. Saem da casa dos pais, têm uma carreira e alguns conseguem mesmo constituir uma família. Encontram-se na fase em que Erikson diz que, estabelecida uma identidade definitiva e fortalecida, o jovem pode se unir a outra pessoa sem se sentir ameaçado. Alguns jovens, porém, não conseguem superar essa fase, e uma das soluções é preferir o isolamento à união, “protegendo-se” do compromisso. Retornam à casa dos pais e lá permanecem.

Caso ultrapassem bem a fase, a seguinte seria a etapa em que o indivíduo encararia a crise da generatividade x estagnação. Nesta etapa, há uma maior preocupação com o compartilhamento do conhecimento, dos valores, de tudo aquilo que se aprendeu com as experiências da vida. Nosso protagonista, aproximando-se dessa fase, sente a necessidade de algo mais. O ouro que conseguiu não seria suficiente para que passe essa nova fase.

Empreende uma nova expedição e retorna do pé de feijão com uma harpa mágica

(…) ela representa a arte, no caso a música: um conhecimento superior, uma capacidade de expressão, comunicação, não material e que não pode ser comprada. Ao retornar com mais este elemento, Jack está psicologicamente completo e equilibrado. (Buckowski, 2016)

Após a última expedição, João configura-se um adulto completo. Esta etapa de sua jornada está terminada e ele agora sente-se seguro e confiante para passar esse saber adiante.

Referências

ASSIS, Maria B. A. Contard. A epopeia de tornar-se adulto: sua presença na clínica e nos contos de fadas. In.: Temas em Psicologia. 1994. Vol. 2. ISSN 1413-389X. Disponível online no endereço eletrônico http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1994000200009 – consultado em 05/ 06/ 2016

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 14ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

BUCKOWSKI, Marcelo. A linguagem simbólica no conto João e o Pé de Feijão. Disponível online no endereço eletrônico http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/XISemanaDeLetras/pdf/marcelobuck.pdf – consultado em 05/ 06/ 2016

JACOBS, Joseph. Jack and the beanstalk. In. JACOBS, Joseph. English fairy tales. Suffolk: Penguin Books, 1968.

RABELO, Elaine e PASSOS, José S. Erikson e a Teoria Psicossocial do Desenvolvimento. Disponível online no endereço eletrônico http://www.josesilveira.com/artigos/erikson.pdf – consultado em 05/ 06/ 2016

TATAR, Maria. Contos de fadas. São Paulo: Jorge Zahar, 2003.

Deixe uma resposta