Envelhecimento saudável – algumas dicas

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Há alguns meses nos foi proposta uma tarefa bem interessante: o que seria o envelhecimento ideal? O que seria um envelhecimento saudável?

A ideia é extremamente pertinente. Vejam, a OMS (2011, p.5) publicou que, pela primeira vez na história, a maioria das pessoas do planeta vão viver mais de 60 anos. Isso se dá por uma série de fatores: melhoria nas condições de vida, mais acesso a assistência médica, avanços na medicina e por aí vai. Somando à isso o fato de que as taxas de natalidade estão baixando levou a OMS a concluir que está havendo um rápido envelhecimento da população do problema. Qualquer discussão no sentido de melhorar as condições como as pessoas envelhecem, pode trazer melhoras para uma expressiva fatia da população mundial.

Bem, o envelhecimento saudável é muito mais que a ausência de doenças. É todo um bem estar biológico, psíquico e social. O pesquisador Skinner (1985, p.18) já via importância no entendimento do envelhecer. Ele entendia que de nada adiantaria conceder mais anos de vida a pessoas que não desfrutavam dessa vida.

Para essa discussão, vamos tomar a liberdade de discutir apenas os aspectos psíquicos desse processo de envelhecimento. E nesse quesito, vários estudiosos tentaram entender esse etapa do desenvolvimento humano. Citamos aqui – de maneira bem resumida – dois deles, que consideramos mais pertinentes: Erikson e Jung.

ErikH.Erikson
Erik H. Erikson
fonte: Google Images

Erikson desenvolveu sua teoria concebendo o desenvolvimento psicossocial do homem em 8 estágios, nos quais enfrentaria crises do ego. O resultado de cada crise poderia ser positivo ou negativo. Desfechos positivos fortaleceriam o ego, enquanto os negativos, tornariam o ego mais fragilizado. A cada desfecho haveria, segundo seu conceito, uma reestruturação da personalidade.

A fase do envelhecimento englobaria dois de seus estágios. No sétimo, que, cronologicamente se dá entre 35 e 65 anos aproximadamente, o sujeito passa a se preocupar com aquilo que foi gerado a partir de sua vida – filhos, ideias, produtos. Se ele se sente bem com aquilo que criou, deseja passar adiante aquilo que aprendeu, seus valores, aquilo que viveu e disso surge a virtude do cuidado. Quando vivida negativamente, porém, o sujeito se foca em seus próprios interesses superficiais, suas relações interpessoais são empobrecidas e vem daí um autoritarismo: “eu quem sei, eu quem mando!”

No oitavo estágio, que se daria a partir dos 65 anos, temos a crise da integridade x o desespero. Nesse ponto o sujeito revê sua vida: o que fez e o que deixou de fazer… Dessa retrospectiva pode surgir um desespero, ao acreditar que não fez o suficiente e que não há mais tempo para reverter. Positivamente atravessada, essa crise leva o sujeito a desenvolver uma integridade, no sentido de se sentir inteiro, completo, de que fez, se não tudo, ao menos tudo o que era possível. Surge daí sabedoria, um sentimento de inteireza e completude.

Jung
Carl G. Jung
fonte: Google Images

Jung pensou o desenvolvimento do sujeito a partir de uma abordagem a partir da qual a individuação seria o processo central do desenvolvimento humano. Para ele, o ser humano nasceria pleno e renegaria alguns de seus aspectos em busca de aprovação. Assim, o sujeito seria, por exemplo, ao mesmo tempo, obediente e desobediente, mas veria que, ao ser obediente teria a aprovação da mãe. Para ter essa aprovação, renegaria esse aspecto de sua personalidade, o enviando para a sombra – pense como uma espécie de inconsciente. À medida que cresce, mais e mais conteúdo é atirado à sombra e isso vai gerando uma grande pressão pois, na sua concepção, tudo que é oculto deseja vir à luz.

Em sua época, ele entendeu que metade da sua vida, o homem viveria voltado para o mundo externo – lutava por um lugar na sociedade, status, dinheiro, família… Na segunda metade, que se daria por volta dos 40 anos, o sujeito passa por uma crise profunda de crenças, a metanóia. Ele percebe que o que ele diz ser não dá conta de enfrentar essa crise e percebe a necessidade de voltar para dentro de si e encontrar, não o que diz ser ou o que dizem que ele é, mas o que verdadeiramente é. Conhecer seu self. A esse processo de emersão do verdadeiro self, Jung chamou de processo de individuação. Um processo que, segundo ele, coloca o indivíduo numa comunhão indissolúvel com o mundo.

Desses dois autores, vemos que um envelhecimento ideal deveria passar por uma jornada de autoconhecimento e um reconhecimento do que fez, mesmo que esteja longe da perfeição, dentro de um entendimento de que o que construiu foi aquilo que foi possível dentro das condições que lhe foram impostas e com as ferramentas que lhe foram ofertadas.

Baseados nessas – e em outras – teorias, alguns pesquisadores resolveram buscar conceber algum modelo de envelhecimento que pudesse ser considerado saudável. Papalia (2013) nos traz três desses modelos, aqueles mais considerados. Atchley entende que deve haver uma ligação entre passado e presente para que o idoso se sinta bem nesse processo. Assim, o envelhecimento ideal passaria, necessariamente pela percepção dessa conexão em sua vida diária. Moddy, entende que o sujeito, para ter um envelhecimento saudável deve se abster da aposentadoria esteriotipada – aquela em que o sujeito não faz nada o dia inteiro. Ele deve se manter ativo. Sem algo em que focar sua energia psíquica, fatalmente definharia e morreria. Cumming e Henry acreditam que o envelhecimento saudável se dá na medida que o sujeito vai abrindo mão de seus papéis sociais – abdica do papel de trabalhador ao se aposentar, de pai, ao se tornar avô e por aí vai. Rowe e Khan desenvolveram seu modelo que considera que o envelhecer saudável passa por uma baixa probabilidade de doença, numa boa capacidade física e cognitiva e no engajamento ativo para com a vida.

Essas bases, que citamos brevemente, nos deram orientações para que pudéssemos levar a cabo um estudo de caso, no qual pegamos um idoso – de 80 anos – ativo e feliz. Questionamos, comparamos e chegamos à conclusão de que as bases teóricas efetivamente se aplicam. Os pontos que a teoria indicava que levariam a um envelhecimento saudável eram salientados em seu discurso. De maneira resumida e didática, percebemos que o envelhecimento ideal não se resume, mas contempla alguns pontos centrais que perpassam as teorias que consultamos e a prática que observamos. Esses são nossas 11 dicas de envelhecimento saudável que, esperamos, possam lhe ajudar a chegar à fase avançada do desenvolvimento ainda se considerando capaz, produtivo e, acima de tudo, feliz!…

1. Ame o que se faz;
2. Siga seus próprios objetivos de vida – cada fase vai te trazer novos objetivos e desafios;
3. Conheça sua genética e adeque seus hábitos, alimentação, pensamentos, para ser fisicamente saudável;
4. Tenha uma religiosidade intrínseca em seus atos – não necessariamente uma religião formal, mas um sentimento de comunhão com o mundo, seja através do rito formal, seja pela atitude perante à vida;
5. Mantenha-se ativo intelectualmente;
6. Sinta-se parte de uma rede planetária e essa rede te dá apoio e energia;
7. Encare seus arrependimentos como oportunidades de aprendizado;
8. Tenha uma rede de apoio ampla, com vários amigos, conhecidos, familiares, com os quais você se relaciona;
9. Lide bem e tranquilamente com as diferenças;
10. Tenha resiliência frente às adversidades da sua vida; e, acima de tudo,
11. Assuma responsabilidade pelas sua própria vida.

 

 

REFERÊNCIAS

ABRAHAO, Emily de Souza. O desvelar da velhice: as contribuições da psicanálise na busca de sentidos para a experiência do envelhecer. Rev. SPAGESP,  Ribeirão Preto , v.9, n.1, p.45-51, jun. 2008. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702008000100008&lng=pt&nrm=iso> – Acesso em: 30  out.  2016.

ERIKSON, Erik. O ciclo de vida completo; trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese – Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

JACOBI, Jolande. A psicologia de C. G. Jung: uma introdução às obras completas. Tradução de Ênio Paulo Giachini – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

JUNG, C. G. Livro Vermelho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

MARCONES, Kathy A. Introdução à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Disponível online em <http://www.portas.ufes.br/sites /www.portas.ufes.br/files/Jung.pdf>  – Acesso em: 08 nov. 2016

OMS, Constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) – 1946. Organização Mundial da Saúde: Nova Iorque, 1946.  Disponível em < http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OMS-Organiza%C3%A7%C3%A3o-Mundial-da-Sa%C3%BAde/constituicao-da-organizacao-mundial-da-saude-omswho.html> – Acesso em 01 nov. 2016

OMS, Resumo: Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde. Organização Mundial de Saúde: Genebra, 2011 – publicação/atualização.

Disponível em <http://sbgg.org.br/wp-content/uploads/2015/10/OMS-ENVELHECIMENTO-2015-port.pdf> – Acesso em: 30 out. 2016

_____, Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: 2005. Organização Pan-Americana da Saúde.

PACHECO, J. L. (2005). Sobre a aposentadoria e envelhecimento. In J. L. Pacheco, J. L. M. Sá, L. Py & S. N. Goldman (Orgs.), Tempo rio que arrebata (pp.59-73). Holambra: Setembro.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth D. . Desenvolvimento Humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

ROWE, John W. ; KAHN, Robert L. Successful Aging. The Gerontologist , [S.l.], v. 37, n. 4, p. 433-440, 1997. Disponível em: <http://gerontologist.oxfordjournals.org/content/37/4/433.full.pdf+html>. Acesso em: 09 nov. 2016.

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SKINNER, Burrhus Frederic. Viva bem a velhice : aprendendo a programar a sua vida / B. F. Skinner e M. E. Vaughan ; (tradução de Anita Liberalesso Neri). São Paulo : Summus, 1985.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra – 7ª. ed.– Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (Coleção Vida e Obra).

WHITMONT, Edward C. A busca do símbolo. Conceitos básicos de psicologia analítica. Tradução Eliane Fittipaldi Pereira e Kátia Maria Orberg – São Paulo: Ed. Cultrix, 1990.

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